Parcialmente verdadeiro

“O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”

O grito ouvido durante o discurso de posse da presidente Dilma Roussef encheu o peito de quem luta pela democratização da comunicação no Brasil. Mas é preciso fazer uma reflexão que vá além da disputa entre PSDB e PT para entender onde podemos chegar ou para que caminhos essa discussão pode nos levar, em um contexto de um Congresso Nacional ainda mais conservador e uma quarta gestão petista no Palácio do Planalto.

O auditório que assistia à fala da presidente Dilma Roussef era formado basicamente por partidários da presidente Dilma Roussef, jornalistas e integrantes de movimentos sociais e partidos associados ao PT. Após as denúncias ainda não comprovadas feitas pela Veja às vésperas das eleições mais disputadas da nossa recente democracia, e a repercussão que deu a principal emissora de TV do Brasil especialmente no sábado à noite, a crítica na hora da vitória demonstra uma insatisfação de momento.

Mas é preciso ter noção de que nas jornadas de junho uma das principais bandeiras era justamente a democratização da mídia. E que muitos manifestantes se queixaram do uso político não só da mídia, como também dos movimentos sociais controlados por partidos, para silenciar ou tornar públicas as agendas que interessam aos interesses de quem os controla. Para aqueles que estão começando a olhar para esse jogo agora, bem vindos ao mundo da política brasileira.

A eleição é um exemplo perfeito de como os grupos empresariais que controlam os grandes veículos de comunicação no Brasil pautam a nossa sociedade de acordo com o interesse deles (empresários, jornalistas e – algumas vezes – políticos). Mas é justamente um dos maiores exemplos de que não basta inverter a chave e dar poder a um outro lado. Por isso, é o grande momento para se ter noção da importância da regulação do setor, do investimento em comunicação (verdadeiramente) pública e principalmente da valorização das novas mídias e da diversidade de conteúdo.

O principal atingido pela manipulação da mídia não é o Governo Federal. Por sinal, a máquina governamental tem suas defesas para diminuir os efeitos desse controle. Mas e a população que se vê por exemplo (para falar de um exemplo que acompanhei recentemente) de uma comunidade que se vê às voltas com grandes obras de um megaevento?

Refém de veículos de comunicação que tem nos anúncios sua principal fonte de renda, essas populações vêem suas demandas muitas vezes silenciadas. E apelam para aquilo que os resta, os movimentos sociais, mas na hora do desespero falta traquejo, sensibilidade e mesmo experiência para saber que ali também há toda uma discussão e uma hierarquia do que deve ou pode ser posto em pauta.

O momento é de comemoração para muitos petistas. Talvez seja de tristeza para quase metade da população, que não acredita mais na mudança com essa configuração de forças. Mas para quem acredita na importância da democratização da comunicação é sinceramente uma oportunidade única de unir forças para conseguir avançar em pontos que as gestões de Lula e Dilma Roussef foram muito tímidas.

Se a presidente reeleita espera ter uma aliança com as ruas, que tiveram importância fundamental para a vitória petista em 2014, deve perceber o clamor para se trabalhar por meios de comunicação que reproduzam a diversidade de contextos de um país continental. E levar o debate muito além do clamor de um grito apenas “parcialmente verdadeiro” (para utilizar o nome do vídeo que produzi como projeto final de graduação, em que abordava a cobertura da mídia na vitória de João Paulo sobre Roberto Magalhães em 1999, pela Prefeitura do Recife).

Naquela época, o prefeito petista ganhou no Tribunal Regional Eleitoral um processo que lhe daria direito a uma vultosa indenização por conta de uma pesquisa ilegal publicada pela Folha de Pernambuco às vésperas das eleições municipais. O político foi entrevistado e preferiu não explicar os motivos que o faziam não cobrar o valor, mesmo a Justiça tendo considerado que seu partido e sua candidatura haviam sido prejudicados.

Talvez naquela época fosse impossível para um político pensar que poderia enfrentar o poderio das empresas de comunicação, mesmo sendo o adversário uma empresa de pequeno porte em Pernambuco, mas com a força das redes sociais e as novas tecnologias é preciso ter noção que vivemos um novo momento para travar esse debate. A candidatura da presidente Dilma Roussef pode ser um exemplo a ser seguido por milhares de grupos silenciados no Brasil todo (inclusive pela máquina do PT que também cala os movimentos sociais).

Então, é preciso deixar claro que a Rede Globo tem qualidades e defeitos. A Editora Abril e a Revista Veja também tem pontos positivos e negativos. E que a maioria da população não quer perder o direito sagrado à novela das oito. Mas hoje o debate da democratização da comunicação para começar deveria passar por um coletivo poderoso como o Partido dos Trabalhadores levar até o fim na Justiça (respeitando a nossa legislação ainda pouco avançada) um processo para tentar ter reparado o dano causado pela reportagens (que eles consideraram) tendenciosas da última semana.

Quem sabe assim, eles não se convencem também de que precisamos melhorar nossa legislação para democratizar a nossa comunicação!?

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Precisamos mesmo criar inimigos artificiais?

Acabo de assistir uma propaganda absurda da Skol em que se incita a violência entre argentinos e brasileiros. Uma rivalidade futebolística, mas que uma empresa de grande porte teima em reverberar como se fosse uma guerra (disfarçada) entre nações irmãs. Ironizar o hino do país vizinho? Oferecer um canhão como forma de voltar para Buenos Aires? Mostrar o grupo de turistas ser enganado e trancado por nossa torcida? Talvez seja o ato mais explícito dessa tentativa de gerar inimizades.

Quem quiser pode conferir no link o comercial (http://www.youtube.com/watch?v=UinigNzZR5I), mas esse processo de criar inimigos artificiais passa pela imprensa também.

Como jornalista esportivo, tenho centenas de críticas à realização da Copa do Mundo no Brasil, mas o maior legado desse torneio eu não tenho dúvida que foi a integração com as diferentes culturas que tiveram oportunidade de estarem nas 12 cidades sedes e por onde passaram suas seleções. Nesse aspecto, é claro que os povos latinos fizeram bonito, encheram os pontos turísticos e conquistaram a simpatia de todos que tiveram oportunidade de conviver com eles.

Conversei com um taxista recifense essa semana e ele foi claro. “Os latinos foram os meus preferidos, não só porque dava para conversar mas porque eles foram quem mais gastaram, principalmente os mexicanos”, me contou Maxwel Silva de Assis. Além do México, elogiou também a simpatia dos colombianos, costarriquenhos e lamentou apenas as poucas oportunidades que teve para aprender outras línguas, fato que dificultou seu trabalho na hora de levar no seu carro alemães e croatas.

Maior craque da Argentina, Messi é ídolo e companheiro de equipe de Neymar no Barcelona. Natural que milhões de crianças e adolescentes admirem o futebol do melhor jogador de futebol do mundo na atualidade. Assim como eu aprendi a ver futebol aos oito anos com o incrível Maradona, que com gol de mão e uma das jogadas mais geniais da história contra a Inglaterra fez em 1986 a maior apresentação em Copa do Mundo que eu vi até hoje de um atleta.

Torço para que as crianças brasileiras de hoje consigam sair dessa Copa com desejo de repetir grandes jogadas de Messi, Di Maria, Higuain. Afinal, sou filho de uma geração que viu a seleção derrotada como criança e que teve como referências Burruchaga, Pumpido, Maradona e até mesmo Batistuta e o carrasco Cannigia, afinal já tinha criado admiração pelos futebol dos “hermanos” quando eles eliminaram aquele fraquíssimo time comandado por Sebastião Lazaroni em 1990.

Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos
Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos

E a raiva destilada indiscriminadamente contra a Argentina toma uma proporção ainda mais séria quando chegamos a um dos maiores personagens da Copa do Mundo nesta semana. O lateral colombiano Zuñiga talvez só perca em número de aparições na imprensa para o atacante Neymar desde a última sexta-feira. Mas a tentativa de se criar um algoz é tão evidente que chega a desrespeitar um dos preceitos mais importantes do jornalismo.

Para ser um bom repórter, o estudante de jornalismo precisa aprender que deve ouvir os especialistas mesmo que eles não digam o que você acredita. No caso do jogador colombiano, era preciso criar um inimigo por ele ter feito uma falta dura e não ter levado sequer um cartão amarelo?

O árbitro errou, mas até o treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, explicou logo depois da partida. “Nossos jogadores também dividiram jogadas mais rispidamente do que o normal. (O árbitro) poderia coibir o jogo violento nosso e deles. Embora não acredite que tenha sido intencional. Foi uma rebatida de um escanteio, na hora que o Neymar tomou a frente, o rapaz veio para tomar a frente”.

Outros jogadores e ex-atletas explicaram a jogada infeliz do colombiano, como o próprio Roger, comentarista da TV Globo, que precisou ser interrompido pela apresentadora do Esporte Espetacular ao reforçar o que Felipão já disse desde a coletiva oficial da Fifa. Neymar desfalca o Brasil e perde uma oportunidade única de estar nas finais do Mundial, mas Zuñiga terá de conviver com as ameaças de violência, que já vem sofrendo pelas redes sociais e é responsabilidade dos comunicadores sociais não incentivar esse sentimento de revanchismo desproporcional. Até para que ele não sofra mais do que a vítima da sua joelhada.

Felizmente, o colombiano deixou claro seu desejo de ver Neymar nos campos. E os jogadores do Brasil demonstraram na última partida que não dependem do atacante para jogar bem e vencer, a forte Colômbia ou quem sabe a Alemanha na semifinal e a Argentina na final. Torço para que possamos dizer em breve que Thiago Silva e David Luiz pararam Messi e Higuín, como eu digo mesmo sem ter visto ao vivo que Pelé foi sim melhor do que Maradona.

Afinal, o gol mais bonito das Copas foi marcado pelo nosso zagueiro Carlos Alberto Torres!

Al Jazeera analisa cobertura de protestos durante a Copa

O Listening Post, da Al Jazeera, fez importante reportagem em inglês analisando a pouca abertura da mídia tradicional às temáticas dos protestos ocorridos desde junho de 2013 e abordando também os veículos alternativos surgidos neste processo, citando inclusive o blog Mídia Capoeira.

Ainda surpresos com os mais de 30 mil acessos que o blog teve em junho e com a boa repercussão principalmente dos dois vídeos que divulgamos, ficamos ainda mais felizes com a citação em um programa respeitadíssimo mundialmente.

Assistam:

A arena, o metrô e as paçocas

* Artigo do jornalista André Justino, escrito no dia da partida Alemanha x Estados Unidos, pela Copa do Mundo.

A manhã do quarto jogo na Arena Pernambuco, entre as seleções da Alemanha e dos Estados Unidos foi marcada pela chuva e pela circulação no metrô de um número considerável de torcedores. As faces comuns do dia a dia, de pessoas que seguiam para o trabalho, guardavam nítido contraste com os alemães e norte americanos de porte físico alto e a pele clara. Mas, foi no trem da linha Jaboatão, que se deu o maior dos contrastes, lá, fora do alcance da fiscalização da Dircon, o menino Wesley, de 12 anos, vendia paçocas de amendoim dentro do metrô, sem nem se preocupar com a fantasia passageira da realização da Copa do Mundo.

O garoto, de passos e fala rápida, que circulava entre um vagão e outro carregando uma caixa cheia de paçocas e que provavelmente tinha o mesmo peso dele, disse que morava no bairro do Barro Vermelho, em São Lourenço da Mata, cidade onde se dá os jogos do Mundial. Os trajes dele não omitiam sua origem, se na frente do corpo carregava a caixa, nas costas trazia uma mochila da rede pública de ensino são lourencense, que dizia em letras garrafais “CIDADE DA COPA”.

Na viagem ele disse que vendia no metrô, pois tinha de se virar para conseguir dinheiro, mas que quando dava ele ia para a escola. “Minha mãe está em casa chegou essa semana da prisão e meu pai está morto”, sentencia o menino, quase que admitindo não ter outra opção de vida. “Venho para Jaboatão, pois tem muito guarda de Coqueiral para lá”, reforçando a informação de que há um aumento na segurança das estações localizadas em Recife, com equipes da prefeitura que inclusive tomam as mercadorias dos ambulantes e os colocam para fora do metrô.

Ao chegar à estação Jaboatão, em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem para descer, o pequenino Wesley sumiu. Só foi visto novamente fora dos vagões, já acompanhado por uma agente terceirizada da segurança da CBTU. Ela, que disse já ter sido previamente avisada da presença de um vendedor ambulante no trem, o direcionou até a integração do sistema SEI de Jaboatão, lhe apontando a parada do ônibus que voltava para estação Floreano, “Lá você consegue entrar novamente e não volte mais aqui não viu, pois vou ter de agir de outra forma”, adverte a segurança.

De lá o franzino menino seguiu. Não se sabe se voltará para casa em São Lourenço da Mata ou para uma nova empreitada, desviando-se dos seguranças no metrô. O que se sabe é que a caixa ainda estava cheia e menos mal que ele não a perdeu, pois era o sinal de que se por um lado com um Real dentro da arena não daria para comprar nada, do lado de fora, com a mesma moeda alguém poderia adquirir sete paçocas, ou seja, Wesley ainda tinha muito trabalho pela frente.

Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
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Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
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Criança foi proibida de vender paçocas no metrô
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