Parcialmente verdadeiro

“O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo!”

O grito ouvido durante o discurso de posse da presidente Dilma Roussef encheu o peito de quem luta pela democratização da comunicação no Brasil. Mas é preciso fazer uma reflexão que vá além da disputa entre PSDB e PT para entender onde podemos chegar ou para que caminhos essa discussão pode nos levar, em um contexto de um Congresso Nacional ainda mais conservador e uma quarta gestão petista no Palácio do Planalto.

O auditório que assistia à fala da presidente Dilma Roussef era formado basicamente por partidários da presidente Dilma Roussef, jornalistas e integrantes de movimentos sociais e partidos associados ao PT. Após as denúncias ainda não comprovadas feitas pela Veja às vésperas das eleições mais disputadas da nossa recente democracia, e a repercussão que deu a principal emissora de TV do Brasil especialmente no sábado à noite, a crítica na hora da vitória demonstra uma insatisfação de momento.

Mas é preciso ter noção de que nas jornadas de junho uma das principais bandeiras era justamente a democratização da mídia. E que muitos manifestantes se queixaram do uso político não só da mídia, como também dos movimentos sociais controlados por partidos, para silenciar ou tornar públicas as agendas que interessam aos interesses de quem os controla. Para aqueles que estão começando a olhar para esse jogo agora, bem vindos ao mundo da política brasileira.

A eleição é um exemplo perfeito de como os grupos empresariais que controlam os grandes veículos de comunicação no Brasil pautam a nossa sociedade de acordo com o interesse deles (empresários, jornalistas e – algumas vezes – políticos). Mas é justamente um dos maiores exemplos de que não basta inverter a chave e dar poder a um outro lado. Por isso, é o grande momento para se ter noção da importância da regulação do setor, do investimento em comunicação (verdadeiramente) pública e principalmente da valorização das novas mídias e da diversidade de conteúdo.

O principal atingido pela manipulação da mídia não é o Governo Federal. Por sinal, a máquina governamental tem suas defesas para diminuir os efeitos desse controle. Mas e a população que se vê por exemplo (para falar de um exemplo que acompanhei recentemente) de uma comunidade que se vê às voltas com grandes obras de um megaevento?

Refém de veículos de comunicação que tem nos anúncios sua principal fonte de renda, essas populações vêem suas demandas muitas vezes silenciadas. E apelam para aquilo que os resta, os movimentos sociais, mas na hora do desespero falta traquejo, sensibilidade e mesmo experiência para saber que ali também há toda uma discussão e uma hierarquia do que deve ou pode ser posto em pauta.

O momento é de comemoração para muitos petistas. Talvez seja de tristeza para quase metade da população, que não acredita mais na mudança com essa configuração de forças. Mas para quem acredita na importância da democratização da comunicação é sinceramente uma oportunidade única de unir forças para conseguir avançar em pontos que as gestões de Lula e Dilma Roussef foram muito tímidas.

Se a presidente reeleita espera ter uma aliança com as ruas, que tiveram importância fundamental para a vitória petista em 2014, deve perceber o clamor para se trabalhar por meios de comunicação que reproduzam a diversidade de contextos de um país continental. E levar o debate muito além do clamor de um grito apenas “parcialmente verdadeiro” (para utilizar o nome do vídeo que produzi como projeto final de graduação, em que abordava a cobertura da mídia na vitória de João Paulo sobre Roberto Magalhães em 1999, pela Prefeitura do Recife).

Naquela época, o prefeito petista ganhou no Tribunal Regional Eleitoral um processo que lhe daria direito a uma vultosa indenização por conta de uma pesquisa ilegal publicada pela Folha de Pernambuco às vésperas das eleições municipais. O político foi entrevistado e preferiu não explicar os motivos que o faziam não cobrar o valor, mesmo a Justiça tendo considerado que seu partido e sua candidatura haviam sido prejudicados.

Talvez naquela época fosse impossível para um político pensar que poderia enfrentar o poderio das empresas de comunicação, mesmo sendo o adversário uma empresa de pequeno porte em Pernambuco, mas com a força das redes sociais e as novas tecnologias é preciso ter noção que vivemos um novo momento para travar esse debate. A candidatura da presidente Dilma Roussef pode ser um exemplo a ser seguido por milhares de grupos silenciados no Brasil todo (inclusive pela máquina do PT que também cala os movimentos sociais).

Então, é preciso deixar claro que a Rede Globo tem qualidades e defeitos. A Editora Abril e a Revista Veja também tem pontos positivos e negativos. E que a maioria da população não quer perder o direito sagrado à novela das oito. Mas hoje o debate da democratização da comunicação para começar deveria passar por um coletivo poderoso como o Partido dos Trabalhadores levar até o fim na Justiça (respeitando a nossa legislação ainda pouco avançada) um processo para tentar ter reparado o dano causado pela reportagens (que eles consideraram) tendenciosas da última semana.

Quem sabe assim, eles não se convencem também de que precisamos melhorar nossa legislação para democratizar a nossa comunicação!?

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Precisamos mesmo criar inimigos artificiais?

Acabo de assistir uma propaganda absurda da Skol em que se incita a violência entre argentinos e brasileiros. Uma rivalidade futebolística, mas que uma empresa de grande porte teima em reverberar como se fosse uma guerra (disfarçada) entre nações irmãs. Ironizar o hino do país vizinho? Oferecer um canhão como forma de voltar para Buenos Aires? Mostrar o grupo de turistas ser enganado e trancado por nossa torcida? Talvez seja o ato mais explícito dessa tentativa de gerar inimizades.

Quem quiser pode conferir no link o comercial (http://www.youtube.com/watch?v=UinigNzZR5I), mas esse processo de criar inimigos artificiais passa pela imprensa também.

Como jornalista esportivo, tenho centenas de críticas à realização da Copa do Mundo no Brasil, mas o maior legado desse torneio eu não tenho dúvida que foi a integração com as diferentes culturas que tiveram oportunidade de estarem nas 12 cidades sedes e por onde passaram suas seleções. Nesse aspecto, é claro que os povos latinos fizeram bonito, encheram os pontos turísticos e conquistaram a simpatia de todos que tiveram oportunidade de conviver com eles.

Conversei com um taxista recifense essa semana e ele foi claro. “Os latinos foram os meus preferidos, não só porque dava para conversar mas porque eles foram quem mais gastaram, principalmente os mexicanos”, me contou Maxwel Silva de Assis. Além do México, elogiou também a simpatia dos colombianos, costarriquenhos e lamentou apenas as poucas oportunidades que teve para aprender outras línguas, fato que dificultou seu trabalho na hora de levar no seu carro alemães e croatas.

Maior craque da Argentina, Messi é ídolo e companheiro de equipe de Neymar no Barcelona. Natural que milhões de crianças e adolescentes admirem o futebol do melhor jogador de futebol do mundo na atualidade. Assim como eu aprendi a ver futebol aos oito anos com o incrível Maradona, que com gol de mão e uma das jogadas mais geniais da história contra a Inglaterra fez em 1986 a maior apresentação em Copa do Mundo que eu vi até hoje de um atleta.

Torço para que as crianças brasileiras de hoje consigam sair dessa Copa com desejo de repetir grandes jogadas de Messi, Di Maria, Higuain. Afinal, sou filho de uma geração que viu a seleção derrotada como criança e que teve como referências Burruchaga, Pumpido, Maradona e até mesmo Batistuta e o carrasco Cannigia, afinal já tinha criado admiração pelos futebol dos “hermanos” quando eles eliminaram aquele fraquíssimo time comandado por Sebastião Lazaroni em 1990.

Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos
Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos

E a raiva destilada indiscriminadamente contra a Argentina toma uma proporção ainda mais séria quando chegamos a um dos maiores personagens da Copa do Mundo nesta semana. O lateral colombiano Zuñiga talvez só perca em número de aparições na imprensa para o atacante Neymar desde a última sexta-feira. Mas a tentativa de se criar um algoz é tão evidente que chega a desrespeitar um dos preceitos mais importantes do jornalismo.

Para ser um bom repórter, o estudante de jornalismo precisa aprender que deve ouvir os especialistas mesmo que eles não digam o que você acredita. No caso do jogador colombiano, era preciso criar um inimigo por ele ter feito uma falta dura e não ter levado sequer um cartão amarelo?

O árbitro errou, mas até o treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, explicou logo depois da partida. “Nossos jogadores também dividiram jogadas mais rispidamente do que o normal. (O árbitro) poderia coibir o jogo violento nosso e deles. Embora não acredite que tenha sido intencional. Foi uma rebatida de um escanteio, na hora que o Neymar tomou a frente, o rapaz veio para tomar a frente”.

Outros jogadores e ex-atletas explicaram a jogada infeliz do colombiano, como o próprio Roger, comentarista da TV Globo, que precisou ser interrompido pela apresentadora do Esporte Espetacular ao reforçar o que Felipão já disse desde a coletiva oficial da Fifa. Neymar desfalca o Brasil e perde uma oportunidade única de estar nas finais do Mundial, mas Zuñiga terá de conviver com as ameaças de violência, que já vem sofrendo pelas redes sociais e é responsabilidade dos comunicadores sociais não incentivar esse sentimento de revanchismo desproporcional. Até para que ele não sofra mais do que a vítima da sua joelhada.

Felizmente, o colombiano deixou claro seu desejo de ver Neymar nos campos. E os jogadores do Brasil demonstraram na última partida que não dependem do atacante para jogar bem e vencer, a forte Colômbia ou quem sabe a Alemanha na semifinal e a Argentina na final. Torço para que possamos dizer em breve que Thiago Silva e David Luiz pararam Messi e Higuín, como eu digo mesmo sem ter visto ao vivo que Pelé foi sim melhor do que Maradona.

Afinal, o gol mais bonito das Copas foi marcado pelo nosso zagueiro Carlos Alberto Torres!

Al Jazeera analisa cobertura de protestos durante a Copa

O Listening Post, da Al Jazeera, fez importante reportagem em inglês analisando a pouca abertura da mídia tradicional às temáticas dos protestos ocorridos desde junho de 2013 e abordando também os veículos alternativos surgidos neste processo, citando inclusive o blog Mídia Capoeira.

Ainda surpresos com os mais de 30 mil acessos que o blog teve em junho e com a boa repercussão principalmente dos dois vídeos que divulgamos, ficamos ainda mais felizes com a citação em um programa respeitadíssimo mundialmente.

Assistam:

A arena, o metrô e as paçocas

* Artigo do jornalista André Justino, escrito no dia da partida Alemanha x Estados Unidos, pela Copa do Mundo.

A manhã do quarto jogo na Arena Pernambuco, entre as seleções da Alemanha e dos Estados Unidos foi marcada pela chuva e pela circulação no metrô de um número considerável de torcedores. As faces comuns do dia a dia, de pessoas que seguiam para o trabalho, guardavam nítido contraste com os alemães e norte americanos de porte físico alto e a pele clara. Mas, foi no trem da linha Jaboatão, que se deu o maior dos contrastes, lá, fora do alcance da fiscalização da Dircon, o menino Wesley, de 12 anos, vendia paçocas de amendoim dentro do metrô, sem nem se preocupar com a fantasia passageira da realização da Copa do Mundo.

O garoto, de passos e fala rápida, que circulava entre um vagão e outro carregando uma caixa cheia de paçocas e que provavelmente tinha o mesmo peso dele, disse que morava no bairro do Barro Vermelho, em São Lourenço da Mata, cidade onde se dá os jogos do Mundial. Os trajes dele não omitiam sua origem, se na frente do corpo carregava a caixa, nas costas trazia uma mochila da rede pública de ensino são lourencense, que dizia em letras garrafais “CIDADE DA COPA”.

Na viagem ele disse que vendia no metrô, pois tinha de se virar para conseguir dinheiro, mas que quando dava ele ia para a escola. “Minha mãe está em casa chegou essa semana da prisão e meu pai está morto”, sentencia o menino, quase que admitindo não ter outra opção de vida. “Venho para Jaboatão, pois tem muito guarda de Coqueiral para lá”, reforçando a informação de que há um aumento na segurança das estações localizadas em Recife, com equipes da prefeitura que inclusive tomam as mercadorias dos ambulantes e os colocam para fora do metrô.

Ao chegar à estação Jaboatão, em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem para descer, o pequenino Wesley sumiu. Só foi visto novamente fora dos vagões, já acompanhado por uma agente terceirizada da segurança da CBTU. Ela, que disse já ter sido previamente avisada da presença de um vendedor ambulante no trem, o direcionou até a integração do sistema SEI de Jaboatão, lhe apontando a parada do ônibus que voltava para estação Floreano, “Lá você consegue entrar novamente e não volte mais aqui não viu, pois vou ter de agir de outra forma”, adverte a segurança.

De lá o franzino menino seguiu. Não se sabe se voltará para casa em São Lourenço da Mata ou para uma nova empreitada, desviando-se dos seguranças no metrô. O que se sabe é que a caixa ainda estava cheia e menos mal que ele não a perdeu, pois era o sinal de que se por um lado com um Real dentro da arena não daria para comprar nada, do lado de fora, com a mesma moeda alguém poderia adquirir sete paçocas, ou seja, Wesley ainda tinha muito trabalho pela frente.

Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô

NOTA DA FIP-PE SOBRE A DESOCUPAÇÃO DO CAIS JOSÉ ESTELITA

Sobre “A reintegração de posse mais bonita da História”

A remoção da “Vila Estelita”, nome dado a ocupação do terreno do antigo cais José Estelita, no ultimo dia 17 é mais uma remoção da copa do mundo da FIFA, feita em nome das mesmas empreiteiras beneficiadas com a construção no Brasil dos estádios mais caros da História e das obras de “mobilidade” para ao evento.

A remoção da “Vila Estelita” foi planejada com bastante antecedência enquanto o poder público, em especial a prefeito do Recife no papel de bobo da corte, fingia fazer uma negociação com o movimento. A reintegração de posse se deu através de uma articulação entre o poder público, municipal e estadual, a polícia militar, a imprensa local e as empresas do consórcio Novo Recife (Queiroz Galvão e Moura Dubeux), que agiram em conjunto para viabilizar e justificar a violência da desocupação do terreno.

No fim de semana que antecedeu a desocupação a Moura Dubeux lançou uma ofensiva publicitária milionária defendendo o projeto Novo Recife, artigos contrários aos interesses do consórcio, como o do Reitor da UFPE Anisio Brasileiro e o do economista Clovis Cavalcanti foram vetados nos principais jornais da capital pernambucana, fato amplamente noticiado pelas redes sociais e imprensa nacional. Um dia antes da desocupação uma pesquisa “encomendada” pelo consórcio apontava que 80% da população aprovava o projeto. Durante toda essa semana surgiram denuncias de ativistas do #OcupeEstelita que estariam sendo seguidos nas ruas, pessoas se dizendo funcionários de suape estiveram na rua de ativistas ligados a FIP perguntando aos vizinhos sobre os horários em que tais pessoas estavam em casa. No dia anterior a prefeitura do Recife protagonizou uma encenação onde juntamente com algumas secretárias do Estado de Pernambuco garantiam, mais um a vez, a disposição de encontrar uma saída negociada a situação. Em reunião com a SDS o comando da polícia militar garantia que todos os protocolos seriam observados e que se fosse necessária efetivar a reintegração esta seria a “reintegração de posse mais bonita da história”. Todas essas ações visavam preparar a opinião pública para a violenta reintegração que policia militar efetuaria no dia seguinte.

Policia militar e seguranças do consórcio cercam a ocupação no cais José Estelita
Policia militar e seguranças do consórcio cercam a ocupação no cais José Estelita

Nas primeiras horas da manha do dia 17 de junho os ocupantes da “Vila Estelita” foram surpreendidos pela presença da Polícia Militar e seguranças da Moura Debeux cercando todo o acampamento, perto de 60 pessoas dormiam na ocupação. Pessoas que se identificaram como oficiais de justiça informaram que tínhamos 5 minutos pra sairmos do local. Os ocupantes questionaram sobre a ausência do Ministério Público, que segundo negociação deveria ter sido avisado e estar presente em caso de cumprimento da reintegração, e solicitaram a presença de advogados, todos esses pedidos foram negados. Um dos oficiais de justiça, claramente nervoso, se destacava pela intransigência de não aceitar nada diferente do que a retirada de todos sempre em 5 minutos.

Diante de qualquer possibilidade de resistir a operação de guerra desencadeada, onde cinco batalhões com centenas de policiais foram mobilizados: cavalaria, tropa de choque, cachorros, rocam etc, além dos seguranças das empreiteiras, informamos que iríamos sair pacificamente e pedimos um tempo para desarmar as barracas e arrumar nossos objetos pessoais. No entanto, antes mesmo de todos os presentes, terem sido informados do que estava acontecendo a tropa de choque atacou o acampamento.

Com todas as saídas bloqueadas e impossibilitados de sair, os ocupantes tentaram se refugiar na parte do terreno da união que também estava ocupado, e onde a reintegração de posse não alcançava. Ainda sim, no terreno da união os ocupantes foram cercados pela cavalaria e atacados pela tropa de choque. A resistência dos ocupantes foi moral e pacifica, jogavam água para diminuir os efeitos do gás, gritavam palavras de ordem e por fim, sem qualquer chance de se defenderem deram as mãos e se sentaram nos trilhos. Seis pessoas foram presas, ao menos duas pessoas foram levadas desacordadas ao hospital por conta do efeito do gás e todos covardemente agredidos, balas de borracha e chicotadas. Durante toda a manhã todas as vias de acesso ao cais José Estelita foram fechadas pela guarda municipal e policia militar de forma a dificultar a chegada de qualquer pessoa, nossos advogados foram agredidos e proibidos de entrarem, nenhum socorro, assistência ou possibilidade de sair foi dada aos que estavam dentro do terreno.

Se algumas dezenas de pessoas desarmadas não representavam ameaça aos mais de 300 policiais fortemente armados dentro do terreno; se os ocupantes não protagonizaram qualquer ato de violência contra a polícia; se nenhuma pedra foi arremessada contra a tropa; o que justificaria o uso da força em tamanha desproporção contra 60 pessoas desarmadas, dentre elas crianças e uma mulher grávida¿ A fala de um dos oficiais de justiça de que seria um problema se a imprensa chegasse antes de ter-nos retirado do terreno, talvez nos ajude a responder a questão.

Oficial de justiça que deu 5 min para desocupação do terreno, autorizou a força policial e estava preocupado com a chegada a imprensa.
Oficial de justiça que deu 5 min para desocupação do terreno, autorizou a força policial e estava preocupado com a chegada a imprensa.

Em uma ação orquestrada a saída dos ocupantes foi seguida pela construção imediata de um muro por operário do consórcio novo recife, muro que inclusive se sobrepôs aos trilhos da ferrovia no terreno da união. Tudo isso com a proteção da policia militar e sob a vista dos oficiais de justiça presentes. As vias de acesso ao terreno do cais estavam interditadas, mas imediatamente após nossa retirada caminhões e maquinas do consórcio tentavam entrar no terreno, em seguida, vários ônibus com mais de 100 operários chegaram ao local. Difícil acreditar na versão da Moura Debeux de que não sabiam da reintegração, nem de que não agiram articulados com o poder público, e com a Polícia militar servindo de milícia para as empresas do consórcio.

O dia da desocupação também foi pensado de forma a beneficiar o consórcio e evitar o desgaste do governo do Estado e da prefeitura: dia do jogo da seleção, momento em que todas as atenções estariam voltadas para o jogo e, um dia antes dos desembargadores julgarem a ilegalidade da decisão dada pelo desembargador substituto Márcio Aguiar sobre a reintegração de posse. Assim como na década de 70 a ditadura usou o desempenho da seleção brasileira para promover a ditadura e sufocar as denuncias de tortura, os desaparecimentos e prisões de opositores do regime, a desocupação foi pensada, articulada e executada para que os gritos de gol da terça-feira pudessem sufocar os gritos de indignação da cidade.

Após a saída do terreno nossos pertences foram jogados dentro de dois caminhões e descarregados em frente ao viaduto Capitão Temudo ao lado do terreno. Câmeras, computadores e materiais eletrônicos que continham informações e arquivos sobre a ocupação desapareceram. Cinicamente a policia militar apresentou enxadas, martelos e materias de trabalho, usados para construir as parcas estruturas do acampamento e capinar a área como “armas”. Faltou a polícia explicar porque essas “armas” não foram usadas contra eles durante a desocupação. Assim como não se deram o trabalho de explicar porque dos 8 detidos durante o dia apenas um rapaz, morador do Coque, foi encaminhado direto para o Cotel enquanto os demais foram liberados após assinarem TCO.

Essa enorme repressão a manifestantes e desarmados lembra muito as ações do governo Eduardo Campos que no ano passado implantou um verdadeiro estado de exceção em Pernambuco pra sufocar as manifestações populares no estado e que pareciam ter sido colocadas de lado após sua saída para concorrer a presidência da república. O que vemos em Pernambuco é a associação criminosa do poder público, com empreiteiras e a imprensa local numa verdadeira parceria público-privada contra a população da cidade.

Artefatos usados pela PM encontrados do lado de fora da ocupação, depois de cumprida a reintegração
Artefatos usados pela PM encontrados do lado de fora da ocupação, depois de cumprida a reintegração

Não satisfeitos com a violenta e ilegal remoção da “Vila Estelita”, o choque voltou a atacar os manifestantes que se reunião pacificamente em assembleia a tarde. O resultado foi um confronto que terminou com o viaduto Capitão Temudo interditado por mais de mil pessoas durante todo o jogo da seleção. As cenas de violência protagonizadas pela polícia militar de Pernambuco, agindo como milícia da Moura Dubeux e Queiroz Galvão, empresas que investiram milhões nas campanhas do atual prefeito Geraldo Julio e do governador e presidenciável Eduardo Campos, ambos do PSB, foi a principal noticia do dia, na mídia nacional e internacional. No dia em que a cidade do recife foi traída, apunhalada pelos que deveriam defendê-la, os gritos de indignação se sobrepuseram aos gritos de gol e no Recife, dia 17, não teve gol, nem teve copa.

Entendemos que nesse momento o prefeito do Recife Geraldo Júlio tem um papel de protagonismo sobre qual uso a cidade dará ao terreno do antigo cais José Estelita, a ele cabe a decisão de cancelar todos os atos administrativos sabidamente eivados de ilegalidade. Ao governo federal cabe a responsabilidade de cancelar o leilão ilegal do qual o consórcio Novo Recife, único a participar da disputa, adquiriu o terreno pelo lance mínimo.

Por fim, nesse momento em que a vila Estelita resiste e os manifestantes ocupam a parte de baixo do viaduto Capitão Temudo, frente a todas as atrocidades ocorridas que começou com a derrubada ilegal de parte dos armazéns, seguida a agressão física contra um militante do Direitos Urbanos por capangas do consórcio Novo Recife, ações que motivaram a ocupação do terreno. Frente as diversas ameaças, intimidações, agressões e ações ilegais dos quais os manifestante tem sido alvo, desde já responsabilizamos as empresas Moura Dubeux e Queiroz Galvão, o prefeito da cidade do Recife Geraldo Júlio, o governador João Lira Neto e o presidenciável Eduardo Campos por quaisquer atentado contra a integridade física dos manifestantes que se encontram ocupando o espaço ao lado do terreno em disputa.

* O blog reproduz neste post imagens e texto enviados por representantes da Frente Independente Popular, para abrir espaço à discussão que o grupo quer fazer sobre a remoção no #OcupeEstelita.

Roda de Fogo: exemplo de luta pela moradia no #OcupeEstelita

Assistam o filme Roda de Fogo: Cidade Encantada. As ações culturais do #OcupeEstelita recomeçaram com uma sessão emocionante desse curta e um debate interessantíssimo com representantes da comunidade e dos autores do vídeo sobre a luta por habitação na Região Metropolitana do Recife, hoje e no passado.

Morador da comunidade, Alexandre Costa emocionou às cerca de 50 pessoas que se reuniram no “cineteatro” do Viaduto do Cabanga ao lembrar a música que foi puxada por Guadalupe Freitas em um dos principais protestos para garantir a posse da terra para os moradores de Roda de Foto.

“Vocês pensam que nós fomos embora?

Nós enganemos vocês

Fizemos que fomos e voltemos

Ó, nós aqui outra vez!”

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Teu choro não será em vão, Estelita!

Ainda na terça-feira, teve início a reconstrução do acampamento na área embaixo do Viaduto do Cabanga
Ainda na terça-feira, teve início a reconstrução do acampamento na área embaixo do Viaduto do Cabanga

Estava filmando toda a violência policial da operação orquestrada para retirar os ocupantes e desmoralizar lideranças do grupo de manifestantes que combatem o projeto Novo Recife. No trabalho de repórter, deixei de perceber que a pessoa que passava presa seminua e algemada era a minha amiga Cristina Gouvêa. De repente, me encontrei com a namorada de um colega que estava fora do Recife e ela apenas alugou meu ombro e chorou.

Teu choro não será em vão, Estelita!

A violência contra os manifestantes na operação autorizada pelo Governo do Estado tem sido fartamente noticiada e representa o problema crucial da falta de respeito à função pública de instituições centenárias como a Polícia Militar. Mas precisamos começar a tentar entender tudo que representou aquela construção de quase um mês acampados no Cais José Estelita, a troca com as comunidades vizinhas, a tentativa de salvar moradores de rua de uma operação de higienização e as discussões sobre temas como as desapropriações da Copa e em comunidades humildes, como Esperança III, na Encruzilhada.

Dois debates e duas exposições sobre os impactos da Copa aconteceram durante o #OcupeEstelita
Dois debates e duas exposições sobre os impactos da Copa aconteceram durante o #OcupeEstelita

A reconstrução do acampamento no Viaduto do Cabanga é uma demonstração de que tudo aquilo que vinha sendo construído já criou um lastro que dificilmente será destruído, nem mesmo com prisões e violência arbitrária, como a que foi empreendida contra mais de 35 manifestantes durante a remoção do #OcupeEstelita. Em coletiva realizada na quarta-feira, na área abaixo do viaduto que serve como acampamento improvisado depois da remoção realizada no dia anterior, lideranças dos manifestantes pediram a liberdade de um jovem que foi o único a ser enviado para o presídio depois das seis prisões ocorridas na terça-feira.

A arquiteta Cristina Lino Gouvêa fez questão de solicitar a libertação do último preso, que foi liberado ainda na noite de quarta: “a gente teve seis pessoas detidas, eu fui uma delas, mas estou aqui para falar com vocês. Agora dessas cinco eram brancas, uma era negra e morava no Coque, essa foi a única pessoa que foi levada para o Cotel. Apesar dos nossos advogados populares terem sido mobilizados também para defender essa pessoa, o nome dele é Deivisson”.

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A libertação do jovem foi a primeira conquista após a violenta remoção. Mas é preciso entender que antes da remoção violenta, justamente no dia anterior, havia sido aprovado pela Assembleia Legislativa projeto de lei que autoriza o Governo do Estado a ceder 200 hectares de terras à Arena Pernambuco. Se o jogo da seleção brasileira foi utilizado naquele momento para diminuir a repercussão da violência, foi também a forma de silenciar os protestos em relação a área onde centenas de famílias foram desapropriadas em São Lourenço da Mata.

Antes da estreia brasileira, houve uma roda de diálogos no #ocupeestelita sobre a situação das comunidades que foram removidas para obras da Copa do Mundo em Pernambuco, das mulheres no contexto deste megaevento e questionando os gastos públicos no Mundial. Integrante da Frente Independente Popular, Igor Calado acha que o esporte não pode ser “desculpa para fazer uma série de arbitrariedades. E são empreiteiras ligadas aquelas que construíram a Arena Pernambuco que estão sendo beneficiadas aqui no projeto Novo Recife, então lutamos para construir um projeto de cidade diferente do que elas representam”.

Um dos representantes do Coque (R)Existe, Chico Lurdemir, lembrou que os ocupantes foram feridos por balas de borracha, estilhaços de bombas de efeito moral e até mesmo por chicotes da cavalaria assim como de cassetetes do Batalhão de Choque. “A gente acha que essa atitude violenta do Estado, através da sua polícia, à mando do Consórcio Novo Recife, demonstra uma violência que é a mesma que estão querendo fazer com a nossa cidade”, afirmou. E depois ouviu o estudante de Direito da UFPE, Artur Maia, complementar: “nos surpreendemos com essa violência que ocorreu aqui, mas é uma ação corriqueira em bairros vizinhos daqui como o Coque, Brasília Teimosa e o Pina”.

Integrante do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular, ele é um dos ocupantes que já tem uma experiência anterior no apoio a comunidades removidas como as de Esperança, na Encruzilhada, e do Loteamento São Francisco, em Camaragibe. Essa troca, de quem tinha experiências com gente que está começando na luta social. De quem é das comunidades próximas à linha férrea, com quem nem imaginava que ainda funcionasse trem no Recife. Das pessoas que moravam debaixo do Viaduto do Cabanga, com pessoas que em outra situação poderiam até ter medo dessa proximidade. Prova claramente que a luta do #ocupeestelita não é só contra o projeto Novo Recife.