Da necessidade de outro olhar sobre as remoções em comunidades pobres pelo Brasil

A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa estima em mais de 200 mil pessoas removidas pelas obras do Mundial de 2014 em todo o Brasil. Em Pernambuco, apesar do Governo do Estado não divulgar oficialmente, é possível garantir que mais de 2.000 famílias saíram de suas casas neste processo. Mas se todos os dias estão havendo desapropriações injustas qual a necessidade de se falar desse contingente especificamente?

Indignado o estudante da Faculdade de Direito do Recife, Artur Maia, postou essa semana: “passei os últimos dias ocupando o Cais José Estelita (#ResisteEstelita), meio sem muita comunicação, e hoje tive a tristíssima notícia de que ontem a comunidade de Esperança III, localizada próxima à Encruzilhada, sofreu um processo de reintegração de posse BRUTAL, DESUMANO E HUMILHANTE! Pude conhecer as pessoas que ocupavam este terreno por meio do NAJUP (Núcleo de Assessoria Jurídica Popular da UFPE), já que estamos acompanhando e construindo com esta comunidade, e lhes garanto que essas pessoas nada fazem além de tentar garantir seu DIREITO À MORADIA, direito este que lhes é negado constantemente em prol da preservação da ‘propriedade privada’”.

Ele repete a indignação que senti quando cheguei a Camaragibe no ano passado e vi como estavam sendo realizadas as remoções das obras da Copa em Pernambuco. Esperança III é tão importante quanto o Loteamento São Francisco, Viana, Santa Mônica, Cosme e Damião, Coque ou as famílias removidas no Pina e Boa Viagem, para a Via Mangue. Mas diariamente esse tipo de desocupação acontece brutalmente e pouco se fala delas. Por isso, acredito que a Copa do Mundo pode ser um momento importante para mostrar mundialmente como vem sendo a política habitacional no Brasil e mais especificamente em Pernambuco.

Há mortes que foram aceleradas pela depressão e estresse gerados nas remoções da Copa. O empobrecimento é evidente quando você chega a essas comunidades do Recife, Camaragibe ou conversa com os removidos de São Lourenço da Mata. Pessoas que adoeceram são comuns, como em quase todo processo violento de desapropriação. Roubando as palavras de Artur Maia, também “não sei muito de que adianta se indignar e “militar” via internet, mas faço isso para que consiga alcançar algumas pessoas e que essa e muitas histórias de opressão não se percam na mídia tendenciosa, em nossas vidas egoístas e em nossa cidade fragmentada”.

O #OcupeEstelita é um dos momentos mais bonitos que já vi na resistência aos avanços do capital privado sobre o espaço urbano. Mas é preciso dizer que a luta vai muito além das 12 torres que estão tentando ilegalmente construir no centro do Recife. “Lembro das milhões de pessoas pobres, pretas e faveladas que sofrem processos desumanizantes de reintegração de posse, que resistem diariamente aos avanços do “desenvolvimento urbano” em todo o Brasil! Lutamos contra um modelo de desenvolvimento que marginaliza, hierarquiza e criminaliza vidas, pessoas e resistências”, diz meu amigo estudante de Direito.

Então é preciso resistir pelo Estelita! É preciso lutar pela reparação dos danos causados às mais de 2.000 famílias desapropriadas pelas obras da Copa em Pernambuco! Mais que isso, é preciso tornar esses casos exemplos claros das irregularidades que vem sendo cometidas pelo poder público e pelo capital imobiliário para se avançar sobre as áreas de moradia popular. Seja uma comunidade recentemente ocupada como Esperança III, ou uma área como o Loteamento São Francisco, em Camaragibe, onde os terrenos foram comprados na década de 60 por pessoas hoje idosas e ainda marcadas pela certeza de que vivemos em um regime ainda longe da democracia plena.

Resisto em defesa do esporte, para que ele não seja mais utilizado como forma de violentar as comunidades humildes pelo mundo. “Resisto pelo Estelita e por uma cidade menos elitista, antidialógica e democrática. Resisto por um modelo de desenvolvimento construído coletivamente, por um Estado de Direitos! Muito mais do que isso: RESISTO COM O POVO CONTRA OS AVANÇOS DE UM MODELO POLÍTICO, ECONÔMICO E SOCIAL QUE DESTRÓI VIDAS E MANTÉM UMA FALSA ORDEM PACÍFICA, SENDO ELA ESSENCIALMENTE OPRESSORA!”

LOTEAMENTO SÃO FRANCISCO, PRESENTE! COMUNIDADE DE ESPERANÇA III, PRESENTE!!!!!!!

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