Ação higienista da Prefeitura termina em violência contra moradores de rua e manifestantes do #OcupeEstelita

Os manifestantes acampados no #OcupeEstelita foram surpreendidos, na tarde desta quinta-feira, por uma operação ordenada pela Prefeitura do Recife para retirar um grupo de moradores de rua da área abaixo do Viaduto Joana Bezerra. Após indagarem funcionários a respeito do que ocorria e descobrirem que nenhuma documentação que garantisse a oficialidade da ação fora apresentada, tentaram estabelecer uma negociação dialogada. Porém, os agentes do Governo Municipal persistiram na sua conduta de forma truculenta, o que provocou uma intervenção por parte dos ocupantes para garantir o direito à dignidade daquelas pessoas que tinham seus únicos pertences usurpados sem qualquer finalidade expressa. Enquanto se empenhavam em devolver aos seus donos os móveis, colchões e um frigobar que foram jogados na carroceria do caminhão de placa PGT-6766, que se encontrava estacionado na avenida José Estelita, alguns manifestantes acabaram sendo violentamente agredidos por golpes de foices desferidos por um dos agentes Gerência de Operações da Secretaria Executiva de Controle Urbano (GEOP/SECON). Dois deles acabaram feridos ao serem atingidos pela arma. Felizmente, os golpes não foram certeiros e o incidente não resultou em tragédia.

Nem mesmo a presença de vários policiais militares e guardas metropolitanos, que acompanhavam a operação, constrangeu os demais funcionários a também se armarem, com bastões de madeira e metal, e ameaçarem aqueles que reclamavam da atitude desmedida. As cenas absurdas foram testemunhadas por dezenas de pessoas que estavam próximas ao acampamento do #OcupeEstelita. De acordo com imagens e testemunhos, não houve qualquer comportamento violento por parte dos manifestantes que justificasse a reação dos funcionários do órgão da Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano. O episódio ocorreu após o motorista do caminhão ter fracassado em evadir do local, arrancando com o veículo enquanto os pertences dos sem-teto ainda eram resgatados. Algumas fotografias revelam, inclusive, que manifestantes que cobriam os rostos com camisetas chegaram a ser revistados pela PM e liberados. Nenhuma detenção, de agentes da Prefeitura ou ocupantes, foi realizada pela polícia.

À noite, o canal de streaming do #OcupeEstelita transmitiu o depoimento gravado de um dos moradores de rua, no qual afirmava que não ser esta a primeira vez que vivia esse tipo de violações de direito durante operações da GEOP/SECON. Ele, que preferiu não se identificar para não se tornar um alvo de sujeitos que fazem o uso da violência sem ter legítima autoridade para tal, disse que a equipe da Prefeitura do Recife não mostrou qualquer documento oficializando o ato ou mesmo prestou explicações antes de tomar os bens de que eles e seus companheiros se valiam para a sobreviver nas ruas. “Ainda dei boa tarde a eles. Ainda fui bem educado. Mas eles disseram ‘Boa tarde, não. A casa caiu! A gente veio levar tudo.’ Eu disse: vão levar minha comida? Minhas roupas? Isso aqui, eu durmo aqui, eu vivo aqui. E eles não quiseram aceitar. Saíram derrubando tudo, espancando tudo, levaram minha bolsa, carteira, tudo que era meu. A mim não apresentou nada, documento nenhum para justificar o trabalho deles. Por que se tivessem me mostrado não teria ido à luta. E agradeço às pessoas que me ajudaram. Por que se não fosse eles nada disso eu teria adquirido. O que eu perdi? Vou ter que correr atrás, para manter e voltar a tirar documento, porque não é a primeira vez que eles fazem isso. Já conheço o trabalho deles. Só que eles só vem acompanhados, eles não vem pra conversar”, explicou.

O morador de rua agradeceu pelo esforço dos manifestantes em conseguir reaver seus pertences. “Simplesmente [os agentes da GEOP] vieram, não tentaram conversar, já vieram com agressão, espancamento, querendo levar meus objetos. Aquilo que eu não tenho. E graças a Deus e a rapaziada daqui, que tentou me ajudar. Porque se não fosse eles eu não teria nada. Eles levaram meus documentos, um dinheiro meu, porque eu vivo disso de carroça, de reciclagem. O que fizeram hoje não foi de acordo… Se eles tentassem conversar comigo, eu teria entendido o trabalho deles, porque eles querem mostrar serviço, e eu teria aceitado. Mas não, já chegou derrubando, espancando, acertaram um rapaz aqui com uma foice ou facão”. Um estudante da UFPE, de 22 anos, sofreu um corte na parte superior da cabeça quando foi atingido de raspão pela lâmina da foice. Ele foi atendido no Hospital da Unimed, onde recebeu pontos no ferimento e fez exames de tomografia. Por volta das 23h desta quinta-feira, o estudante disse por telefone que já havia recebido alta médica e estava conversando com um advogado para dar entrada na queixa-crime.

O outro manifestante agredido foi atingido pelo funcionário da GEOP com o cabo da foice. Ele preferiu não se identificar, temendo represálias mais graves, optou por não procurar cuidados médicos e não havia se decidido se registraria a ocorrência. À parte todo o comportamento criminoso e ameaçador dos agentes da Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano, a operação poderia ser caracterizada, no mínimo, como estranha. De acordo com apurações da reportagem feitas com especialistas, a abordagem exigia a apresentação de ofício às pessoas em questão e todo processo deveria ter sido acompanhado por assistentes sociais, devendo até mesmo ser antecedido por visitas desses profissionais aos moradores de rua durante algumas semanas, como forma de prepará-los para a mudança e oferecer a devida assistência à sua situação. Os depoimentos ouvidos revelam que não só lhes foi suprimido o direito ao tratamento digno de um ser humano, mas a ação da GEOP/SECON tinha apenas a finalidade de tomar os seus pertences, não oferecendo nenhuma opção de acolhimento nos espaços mantidos pela administração municipal.

“Embora pareça uma afirmação irônica, o direito à moradia deles também foi violado pela Prefeitura. É uma exigência: se o governo vai remover alguém do seu lar para qualquer fim, deve ao menos garantir uma condição igual ou melhor. O que aconteceu na frente do #OcupeEstelita foi algo totalmente arbitrário, abusivo, sem qualquer objetivo além da destruição e usurpação das coisas que faziam essas pessoas viver em um lugar que lhes oferecesse algo como um lar. Como os agressores eram acompanhados por um aparato policial numeroso, seria inocência achar que não seguiam ordens. Se delas advieram toda a brutalidade presenciada e a irregularidade relatada do processo, é algo que a Prefeitura deverá esclarecer. A gente vai fazer a nossa parte e fazer isso ser apurado com apoio de todas nossas entidades parceiras. Na cidade que queremos, não há situação que seja justificativa para desumanizar o humano”, afirmou Renato Feitosa, ocupante do Cais José Estelita e membro do Centro Luiz Freire, ONG pernambucana de Direitos Humanos.

Ouça o áudio da entrevista com um dos moradores de rua: http://bambuser.com/v/4680880

Com camisa da Prefeitura do Recife, agressor atingiu estudante da UFPE com foice

Com camisa da Prefeitura do Recife, agressor atingiu estudante da UFPE com foice

 

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2 thoughts on “Ação higienista da Prefeitura termina em violência contra moradores de rua e manifestantes do #OcupeEstelita”

  1. O Intituto de Assistência Social e Cidadania (IASC) SERVE PARA QUÊ, AFINAL? Bando de LACRAIAS!!!!!!!!!!!!!!!

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