Camaragibe: desapropriados ainda não receberam indenizações

Morador da área onde foi construído o Ramal da Copa, Patrick viu três campos serem destruídos e agora está sem ter onde jogar futebol

O Bus Rapid Transit é a grande novidade de mobilidade trazida pela Copa do Mundo para a Região Metropolitana do Recife. Ele ligará Olinda e o Centro do Recife ao estádio em no máximo duas horas, segundo o Governo do Estado. Mas, com o argumento de que seria necessário para a finalização do Corredor Leste-Oeste (por onde passa o BRT), centenas de famílias foram desapropriadas no fim de 2013 e os torcedores hoje passarão pelo terreno ainda vazio de construção onde foram derrubadas as casas em Camaragibe.

O Terminal Integrado de Camaragibe ainda nem começou a ser construído. Já o Ramal da Copa foi inaugurado na última quinta-feira com a passagem por lá do BRT, mas estará fechado para os veículos comuns durante a Copa do Mundo. Na esquina entre a Avenida Belmínio Correia e a nova avenida o cenário ainda é de vazio. Bandeiras do Brasil e um grande outdoor lembram o Mundial de 2014, os tijolos e o vazio no chão representam a dor das famílias removidas que ainda buscam suas indenizações na Justiça.

No fim de 2013, a então relatora da ONU para o Direito à Moradia, Raquel Rolnik, esteve visitando duas comunidades afetadas pelas obras da Copa do Mundo em Pernambuco e ficou chocada com a maneira como foram feitas as desapropriações. “No loteamento São Francisco, em Camaragibe, foram muitos os relatos que ouvi de moradores idosos com problemas de saúde decorrentes da total insegurança em que vêm vivendo desde que foram comunicados da remoção. São casos de depressão, de AVC, de hipertensão, entre outros. Aliás, soube que nesta segunda-feira oficiais de justiça estiveram na comunidade para pressionar a saída dos moradores, com ameaças de que haverá uso de força policial caso as pessoas não saiam em 24 horas. Ou seja, a ordem é pra sair, sem compensações financeiras que garantam previamente o acesso a uma nova moradia, muito menos uma alternativa de reassentamento”, dizia a relatora (http://raquelrolnik.wordpress.com/2013/12/03/em-pernambuco-repete-se-o-desrespeito-ao-direito-a-moradia/).

No dia do primeiro jogo da Arena Pernambuco, entre Japão e Costa do Marfim, mais de seis meses depois da visita da relatora da ONU, apesar do Loteamento São Francisco ter praticamente deixado de existir, muitas das famílias que tiveram suas casas destruídas ainda buscam as indenizações e a grande maioria dos desapropriados no município de Camaragibe não conseguiu ainda voltar a ter uma casa própria.

A reportagem do Terra acompanhou um dia da luta dos moradores no Fórum de Camaragibe, onde todas as quartas eles fazem uma fila para tentar saber novidades sobre seus processos com a defensora pública Daniele Monteiro. No dia da visita, 15 pessoas aguardavam o atendimento e apenas três tinham recebido parte dos valores a que tinham direito, as outras 12 estavam pagando aluguel ou morando nas casas de parentes e ainda não tinham recebido nada da indenização, apesar de terem tido suas casas destruídas pelo Governo do Estado.

“Isso está muito desorganizado, porque além de desabrigar muitas pessoas, não está trazendo benefício para quase ninguém daqui. Tem muita gente que está morando de aluguel, não recebeu, não sabe nem se vai receber e tem outros que não tem nem previsão, isso está errado. Para ter uma Copa no Brasil teria que ter mais estrutura (organização), porque tem muita gente sendo desabrigada e morrendo, enquanto outras estão por ai no bem bom. Isso é a indignação, porque a gente mora aqui há anos, nunca viu nada disso e quando chega só faz prejudicar, não traz benefício nenhum para a gente”, diz o estudante Patrick dos Santos, de 11 anos, entrevistado durante a finalização do trecho entre o Terminal Cosme e Damião e Camaragibe do Ramal da Copa.

 

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One thought on “Camaragibe: desapropriados ainda não receberam indenizações”

  1. Absurdo, moro em camaragibe e não tinha conhecimento disso. Vemos a estrada pronto e não imaginamos o sofrimentos que, os que ali residiam sentiram. Triste realidade.

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