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Precisamos mesmo criar inimigos artificiais?

Acabo de assistir uma propaganda absurda da Skol em que se incita a violência entre argentinos e brasileiros. Uma rivalidade futebolística, mas que uma empresa de grande porte teima em reverberar como se fosse uma guerra (disfarçada) entre nações irmãs. Ironizar o hino do país vizinho? Oferecer um canhão como forma de voltar para Buenos Aires? Mostrar o grupo de turistas ser enganado e trancado por nossa torcida? Talvez seja o ato mais explícito dessa tentativa de gerar inimizades.

Quem quiser pode conferir no link o comercial (http://www.youtube.com/watch?v=UinigNzZR5I), mas esse processo de criar inimigos artificiais passa pela imprensa também.

Como jornalista esportivo, tenho centenas de críticas à realização da Copa do Mundo no Brasil, mas o maior legado desse torneio eu não tenho dúvida que foi a integração com as diferentes culturas que tiveram oportunidade de estarem nas 12 cidades sedes e por onde passaram suas seleções. Nesse aspecto, é claro que os povos latinos fizeram bonito, encheram os pontos turísticos e conquistaram a simpatia de todos que tiveram oportunidade de conviver com eles.

Conversei com um taxista recifense essa semana e ele foi claro. “Os latinos foram os meus preferidos, não só porque dava para conversar mas porque eles foram quem mais gastaram, principalmente os mexicanos”, me contou Maxwel Silva de Assis. Além do México, elogiou também a simpatia dos colombianos, costarriquenhos e lamentou apenas as poucas oportunidades que teve para aprender outras línguas, fato que dificultou seu trabalho na hora de levar no seu carro alemães e croatas.

Maior craque da Argentina, Messi é ídolo e companheiro de equipe de Neymar no Barcelona. Natural que milhões de crianças e adolescentes admirem o futebol do melhor jogador de futebol do mundo na atualidade. Assim como eu aprendi a ver futebol aos oito anos com o incrível Maradona, que com gol de mão e uma das jogadas mais geniais da história contra a Inglaterra fez em 1986 a maior apresentação em Copa do Mundo que eu vi até hoje de um atleta.

Torço para que as crianças brasileiras de hoje consigam sair dessa Copa com desejo de repetir grandes jogadas de Messi, Di Maria, Higuain. Afinal, sou filho de uma geração que viu a seleção derrotada como criança e que teve como referências Burruchaga, Pumpido, Maradona e até mesmo Batistuta e o carrasco Cannigia, afinal já tinha criado admiração pelos futebol dos “hermanos” quando eles eliminaram aquele fraquíssimo time comandado por Sebastião Lazaroni em 1990.

Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos
Ex-jogador, Juninho Pernambucano divulgou nas redes sociais foto com torcedores argentinos

E a raiva destilada indiscriminadamente contra a Argentina toma uma proporção ainda mais séria quando chegamos a um dos maiores personagens da Copa do Mundo nesta semana. O lateral colombiano Zuñiga talvez só perca em número de aparições na imprensa para o atacante Neymar desde a última sexta-feira. Mas a tentativa de se criar um algoz é tão evidente que chega a desrespeitar um dos preceitos mais importantes do jornalismo.

Para ser um bom repórter, o estudante de jornalismo precisa aprender que deve ouvir os especialistas mesmo que eles não digam o que você acredita. No caso do jogador colombiano, era preciso criar um inimigo por ele ter feito uma falta dura e não ter levado sequer um cartão amarelo?

O árbitro errou, mas até o treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, explicou logo depois da partida. “Nossos jogadores também dividiram jogadas mais rispidamente do que o normal. (O árbitro) poderia coibir o jogo violento nosso e deles. Embora não acredite que tenha sido intencional. Foi uma rebatida de um escanteio, na hora que o Neymar tomou a frente, o rapaz veio para tomar a frente”.

Outros jogadores e ex-atletas explicaram a jogada infeliz do colombiano, como o próprio Roger, comentarista da TV Globo, que precisou ser interrompido pela apresentadora do Esporte Espetacular ao reforçar o que Felipão já disse desde a coletiva oficial da Fifa. Neymar desfalca o Brasil e perde uma oportunidade única de estar nas finais do Mundial, mas Zuñiga terá de conviver com as ameaças de violência, que já vem sofrendo pelas redes sociais e é responsabilidade dos comunicadores sociais não incentivar esse sentimento de revanchismo desproporcional. Até para que ele não sofra mais do que a vítima da sua joelhada.

Felizmente, o colombiano deixou claro seu desejo de ver Neymar nos campos. E os jogadores do Brasil demonstraram na última partida que não dependem do atacante para jogar bem e vencer, a forte Colômbia ou quem sabe a Alemanha na semifinal e a Argentina na final. Torço para que possamos dizer em breve que Thiago Silva e David Luiz pararam Messi e Higuín, como eu digo mesmo sem ter visto ao vivo que Pelé foi sim melhor do que Maradona.

Afinal, o gol mais bonito das Copas foi marcado pelo nosso zagueiro Carlos Alberto Torres!

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A Copa passou pela porta de Patrick e deixou lembranças

Poucos dias antes do início da Copa no Brasil fomos fazer uma série de entrevistas nas comunidades próximas à Arena Pernambuco. O material está editado no vídeo Copa sem Casa, mas muito do sentimento daquelas pessoas com quem estivemos não coube nos 10 minutos de edição. Uma das entrevistas que mais me chamou atenção, foi a conversa com o garoto Patrick dos Santos, de apenas 11 anos.

Morador do Viana, Patrick teve a sorte de não ser um dos desapropriados para as obras da Copa, mas relatou com suas simples palavras todo o drama que viu seus vizinhos passarem. A perda das casas, o drama para tentar receber o dinheiro, os problemas de saúde relacionados a esse estresse, as mortes dos idosos. E contou também que como os removidos acabou sendo uma vítima do Ramal da Copa, porque a estrada destruiu os três campos de futebol da sua comunidade.

A arquiteta Raquel Rolnik explica o fenômeno em artigo publicado nesta semana. “O fato é que os campos de várzea, que no passado revelaram muitos de nossos grandes jogadores, foram minguando rapidamente nas regiões mais centrais, com o processo de urbanização que ocupou estas áreas próximas aos rios. Hoje o futebol amador sobrevive quase que exclusivamente nos campos improvisados nas periferias e favelas, também em franco processo de desaparecimento, sob o impacto da consolidação da urbanização também nestas áreas”. Lá em Camaragibe, Patrick foi vítima da segunda fase desse processo.

Como a maioria dos meninos de 11 do Viana, ele também sonha em ser jogador de futebol. Fomos mostrar o vídeo Copa sem Casa e ele estava em casa. Nas paredes, a bandeira do Brasil e as marcas de um São João verde e amarelo. Mas porque ele não estava jogando bola com os outros meninos num dos campos improvisados no acostamento da estrada? “Ali é muito perigoso. Um colega meu quase morre porque caiu num burado da obra e não sabia nadar”, conta o menino, explicando que o maior perigo são os caminhões em alta velocidade.

A perda dos três campinhos não é um desastre por si só. Ela é apenas mais um reflexo de como vem sendo feito o processo de exploração imobiliária em Pernambuco. Perto da casa onde eu cresci, no bairro de Casa Forte (Recife), também existiam três locais para jogar futebol. Todos foram destruídos para dar espaço aos conjuntos residenciais com suas mini-quadras de uso privativo. E essa situação se repete por todo o Brasil e também com espaços importantes para outros esportes.

Por mais que o Rio de Janeiro tenha sido o local de maiores protestos durante a Copa das Confederações, é chocante a informação de que até agora não foi reconstruída a área dos complexos de atletismo e natação do Maracanã. A Copa passou e deixou Patrick sem seus campinhos. E as crianças que crescerem fora dos condomínios de luxo encontram cada vez mais dificuldade para jogar futebol nos seus bairros pelo Brasil. E mesmo o maior complexo esportivo da Zona Norte do Rio, um dos maiores pontos turísticos do Brasil, também sofre essa violência contra quem acha que o esporte é sim parte fundamental na educação e lazer de uma nação.

Mas ainda temos dois anos para dar exemplos antes das Olimpíadas. Reconstruir com muito mais qualidade os campos das comunidades atingidas pelas obras da Copa. Refazer as casas (como lá no Viana) que foram afetadas pelas obras e estão rachadas. Pagar as indenizações de quem não recebeu e dar casas para os removidos que não tiveram condições de comprar imóveis por conta dos valores baixos recebidos. Serão com certeza bandeiras da sociedade civil nessa nova etapa, seja o Brasil campeão ou não do Mundial da Fifa.

Para muita gente pode ser até uma questão menos importante. Mas, para mim, apaixonado por futebol e por esporte de uma forma geral, também faz parte do meu sonho que nas Olimpíadas possamos dizer que deixamos um legado esportivo para nossas crianças. Infelizmente, minha esperança é mínima. E a Copa do Mundo mostra claramente que estamos muito piores do que antes do Mundial quando falamos em acesso ao futebol. Mas não podemos ficar simplesmente esperando dos governantes e das empreiteiras que mudem sua forma de destruir.

Vocês já ouviram falar do Mundial de Futebol de Rua e da Copa Rebelde? Recife está pronto para discutir o legado esportivo do Mundial 2014!

https://coparebelde.wordpress.com/

http://www.mundialfutebolderua.org/

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A arena, o metrô e as paçocas

* Artigo do jornalista André Justino, escrito no dia da partida Alemanha x Estados Unidos, pela Copa do Mundo.

A manhã do quarto jogo na Arena Pernambuco, entre as seleções da Alemanha e dos Estados Unidos foi marcada pela chuva e pela circulação no metrô de um número considerável de torcedores. As faces comuns do dia a dia, de pessoas que seguiam para o trabalho, guardavam nítido contraste com os alemães e norte americanos de porte físico alto e a pele clara. Mas, foi no trem da linha Jaboatão, que se deu o maior dos contrastes, lá, fora do alcance da fiscalização da Dircon, o menino Wesley, de 12 anos, vendia paçocas de amendoim dentro do metrô, sem nem se preocupar com a fantasia passageira da realização da Copa do Mundo.

O garoto, de passos e fala rápida, que circulava entre um vagão e outro carregando uma caixa cheia de paçocas e que provavelmente tinha o mesmo peso dele, disse que morava no bairro do Barro Vermelho, em São Lourenço da Mata, cidade onde se dá os jogos do Mundial. Os trajes dele não omitiam sua origem, se na frente do corpo carregava a caixa, nas costas trazia uma mochila da rede pública de ensino são lourencense, que dizia em letras garrafais “CIDADE DA COPA”.

Na viagem ele disse que vendia no metrô, pois tinha de se virar para conseguir dinheiro, mas que quando dava ele ia para a escola. “Minha mãe está em casa chegou essa semana da prisão e meu pai está morto”, sentencia o menino, quase que admitindo não ter outra opção de vida. “Venho para Jaboatão, pois tem muito guarda de Coqueiral para lá”, reforçando a informação de que há um aumento na segurança das estações localizadas em Recife, com equipes da prefeitura que inclusive tomam as mercadorias dos ambulantes e os colocam para fora do metrô.

Ao chegar à estação Jaboatão, em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem para descer, o pequenino Wesley sumiu. Só foi visto novamente fora dos vagões, já acompanhado por uma agente terceirizada da segurança da CBTU. Ela, que disse já ter sido previamente avisada da presença de um vendedor ambulante no trem, o direcionou até a integração do sistema SEI de Jaboatão, lhe apontando a parada do ônibus que voltava para estação Floreano, “Lá você consegue entrar novamente e não volte mais aqui não viu, pois vou ter de agir de outra forma”, adverte a segurança.

De lá o franzino menino seguiu. Não se sabe se voltará para casa em São Lourenço da Mata ou para uma nova empreitada, desviando-se dos seguranças no metrô. O que se sabe é que a caixa ainda estava cheia e menos mal que ele não a perdeu, pois era o sinal de que se por um lado com um Real dentro da arena não daria para comprar nada, do lado de fora, com a mesma moeda alguém poderia adquirir sete paçocas, ou seja, Wesley ainda tinha muito trabalho pela frente.

Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô

Teu choro não será em vão, Estelita!

Ainda na terça-feira, teve início a reconstrução do acampamento na área embaixo do Viaduto do Cabanga
Ainda na terça-feira, teve início a reconstrução do acampamento na área embaixo do Viaduto do Cabanga

Estava filmando toda a violência policial da operação orquestrada para retirar os ocupantes e desmoralizar lideranças do grupo de manifestantes que combatem o projeto Novo Recife. No trabalho de repórter, deixei de perceber que a pessoa que passava presa seminua e algemada era a minha amiga Cristina Gouvêa. De repente, me encontrei com a namorada de um colega que estava fora do Recife e ela apenas alugou meu ombro e chorou.

Teu choro não será em vão, Estelita!

A violência contra os manifestantes na operação autorizada pelo Governo do Estado tem sido fartamente noticiada e representa o problema crucial da falta de respeito à função pública de instituições centenárias como a Polícia Militar. Mas precisamos começar a tentar entender tudo que representou aquela construção de quase um mês acampados no Cais José Estelita, a troca com as comunidades vizinhas, a tentativa de salvar moradores de rua de uma operação de higienização e as discussões sobre temas como as desapropriações da Copa e em comunidades humildes, como Esperança III, na Encruzilhada.

Dois debates e duas exposições sobre os impactos da Copa aconteceram durante o #OcupeEstelita
Dois debates e duas exposições sobre os impactos da Copa aconteceram durante o #OcupeEstelita

A reconstrução do acampamento no Viaduto do Cabanga é uma demonstração de que tudo aquilo que vinha sendo construído já criou um lastro que dificilmente será destruído, nem mesmo com prisões e violência arbitrária, como a que foi empreendida contra mais de 35 manifestantes durante a remoção do #OcupeEstelita. Em coletiva realizada na quarta-feira, na área abaixo do viaduto que serve como acampamento improvisado depois da remoção realizada no dia anterior, lideranças dos manifestantes pediram a liberdade de um jovem que foi o único a ser enviado para o presídio depois das seis prisões ocorridas na terça-feira.

A arquiteta Cristina Lino Gouvêa fez questão de solicitar a libertação do último preso, que foi liberado ainda na noite de quarta: “a gente teve seis pessoas detidas, eu fui uma delas, mas estou aqui para falar com vocês. Agora dessas cinco eram brancas, uma era negra e morava no Coque, essa foi a única pessoa que foi levada para o Cotel. Apesar dos nossos advogados populares terem sido mobilizados também para defender essa pessoa, o nome dele é Deivisson”.

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A libertação do jovem foi a primeira conquista após a violenta remoção. Mas é preciso entender que antes da remoção violenta, justamente no dia anterior, havia sido aprovado pela Assembleia Legislativa projeto de lei que autoriza o Governo do Estado a ceder 200 hectares de terras à Arena Pernambuco. Se o jogo da seleção brasileira foi utilizado naquele momento para diminuir a repercussão da violência, foi também a forma de silenciar os protestos em relação a área onde centenas de famílias foram desapropriadas em São Lourenço da Mata.

Antes da estreia brasileira, houve uma roda de diálogos no #ocupeestelita sobre a situação das comunidades que foram removidas para obras da Copa do Mundo em Pernambuco, das mulheres no contexto deste megaevento e questionando os gastos públicos no Mundial. Integrante da Frente Independente Popular, Igor Calado acha que o esporte não pode ser “desculpa para fazer uma série de arbitrariedades. E são empreiteiras ligadas aquelas que construíram a Arena Pernambuco que estão sendo beneficiadas aqui no projeto Novo Recife, então lutamos para construir um projeto de cidade diferente do que elas representam”.

Um dos representantes do Coque (R)Existe, Chico Lurdemir, lembrou que os ocupantes foram feridos por balas de borracha, estilhaços de bombas de efeito moral e até mesmo por chicotes da cavalaria assim como de cassetetes do Batalhão de Choque. “A gente acha que essa atitude violenta do Estado, através da sua polícia, à mando do Consórcio Novo Recife, demonstra uma violência que é a mesma que estão querendo fazer com a nossa cidade”, afirmou. E depois ouviu o estudante de Direito da UFPE, Artur Maia, complementar: “nos surpreendemos com essa violência que ocorreu aqui, mas é uma ação corriqueira em bairros vizinhos daqui como o Coque, Brasília Teimosa e o Pina”.

Integrante do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular, ele é um dos ocupantes que já tem uma experiência anterior no apoio a comunidades removidas como as de Esperança, na Encruzilhada, e do Loteamento São Francisco, em Camaragibe. Essa troca, de quem tinha experiências com gente que está começando na luta social. De quem é das comunidades próximas à linha férrea, com quem nem imaginava que ainda funcionasse trem no Recife. Das pessoas que moravam debaixo do Viaduto do Cabanga, com pessoas que em outra situação poderiam até ter medo dessa proximidade. Prova claramente que a luta do #ocupeestelita não é só contra o projeto Novo Recife.

Despejo #5 mostra como foram realizadas remoções para obras da Copa do Mundo

Depois da grande visibilidade alcançada pelo vídeo que mostra a violência policial na desocupação do Cais José Estelita, o blog Mídia Capoeira posta o vídeo produzido pelo Coque (R)Existe, com imagens integrantes do Comitê Popular da Copa, do fotógrafo Mazella e do jornalista Eduardo Amorim, sobre a situação das famílias removidas para obras da Copa em Camaragibe.

Quando a fantasia não sobrepõe a realidade

Arena Pernambuco está localizada na área rural de São Lourenço da Mata
Arena Pernambuco está localizada na área rural de São Lourenço da Mata

Fotos e texto:

André Justino (jornalista e morador de São Lourenço da Mata)

De fantasia o brasileiro entende bem, uma vez por ano a cultura popular nos oferece o carnaval, a cada seis meses a TV nos apresenta uma nova telenovela e a cada quatro anos a FIFA nos contempla com uma Copa do Mundo de futebol. Em meio à falta de medicamentos nos postos de saúde, o ônibus superlotado de todo santo dia, a falta d’água na torneira e tantos outros problemas, a fantasia serve a todo brasileiro, assalariado e dependente de serviços públicos, como um refúgio. No entanto, tal refúgio, não consegue ocultar a dura realidade do dia a dia, que depois da fantasia, bate como uma ressaca moral.

Horas antes do primeiro jogo oficial da Copa da FIFA, na Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, entre as seleções do Japão e Costa do Marfim, a comunidade de Penedo, bairro da periferia são lourencense, teve uma visita inusitada. Convidados pela Organização Não Governamental, LoveFutbol, torcedores japoneses participaram de uma partida de futebol de salão com moradores vizinhos da quadra, construída pela comunidade com financiamento da ONG, em parceria com a construtora Odebrecht. Foi uma festa a recepção dos turistas, apesar das nítidas dificuldades de infraestrutura apresentada no bairro, tanto que o ônibus que trazia os turistas ficou distante cerca de 800 metros da quadra, pois não comportava o acesso do veículo e os japoneses tiveram de fazer o translado em um taxi.

Uma tarde impar na realidade de um bairro carente, pois essa novidade trouxe, segundo Breno Lacet, Coordenador de Desenvolvimento da LoveFutbol, “bolas, chuteiras e outros materiais esportivos, para a escola e a comunidade dispor no uso da quadra”.

A Escola Paulo Gomes, da rede municipal de ensino, fica ao lado da quadra e diferente da área destinada à prática de esportes, não acolheu com a mesma alegria os estrangeiros, e é nesse desencontro que a fantasia não é capaz de sobrepor a realidade. Pois, os investimentos privados para construção da quadra, ficaram apenas na quadra. Já dentro da escola o exemplo é o mesmo de tantas outras unidades de ensino abandonadas a boa sorte. Um professor da rede municipal, que prefere o anonimato, denuncia que “as condições de ensino e aprendizagem nas salas de aula são sofríveis, é ventilador quebrado, falta material de expediente, os banheiros estão todos danificados, sem condições de uso e a quadra de futsal está linda, mas a ONG ainda não iniciou desde a inauguração, há três meses, um projeto social se quer. Mas repórter de televisão aqui nesse período de copa, é o que não falta”.

Outra escola da cidade, a Jair Pereira, localizada no distrito de Matriz da Luz, ainda em São Lourenço, foi erguida com o intuito de ser uma escola de referencia, mas um levantamento realizado durante a recente greve dos professores da rede municipal expôs além do mesmo cenário dentro da unidade escolar, um total descaso com o desporto e a inclusão da comunidade no convívio da escola, a piscina, que serviria ao uso coletivo, está abandonada, cheia de lodo, lixo e sapos nadando no lugar dos alunos.

Pelo visto a piscina da escola de Matriz da Luz não teve a mesma sorte que a quadra, no bairro de Penedo, com a realização da Copa da FIFA. Dera a educação e o professor, dentro e fora da sala de aula, tivessem a mesma atenção dos governos que tanto querem aparecer, como bastiões do legado da “Cidade da Copa” em Pernambuco.

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