Tag Archives: Infância

A Copa passou pela porta de Patrick e deixou lembranças

Poucos dias antes do início da Copa no Brasil fomos fazer uma série de entrevistas nas comunidades próximas à Arena Pernambuco. O material está editado no vídeo Copa sem Casa, mas muito do sentimento daquelas pessoas com quem estivemos não coube nos 10 minutos de edição. Uma das entrevistas que mais me chamou atenção, foi a conversa com o garoto Patrick dos Santos, de apenas 11 anos.

Morador do Viana, Patrick teve a sorte de não ser um dos desapropriados para as obras da Copa, mas relatou com suas simples palavras todo o drama que viu seus vizinhos passarem. A perda das casas, o drama para tentar receber o dinheiro, os problemas de saúde relacionados a esse estresse, as mortes dos idosos. E contou também que como os removidos acabou sendo uma vítima do Ramal da Copa, porque a estrada destruiu os três campos de futebol da sua comunidade.

A arquiteta Raquel Rolnik explica o fenômeno em artigo publicado nesta semana. “O fato é que os campos de várzea, que no passado revelaram muitos de nossos grandes jogadores, foram minguando rapidamente nas regiões mais centrais, com o processo de urbanização que ocupou estas áreas próximas aos rios. Hoje o futebol amador sobrevive quase que exclusivamente nos campos improvisados nas periferias e favelas, também em franco processo de desaparecimento, sob o impacto da consolidação da urbanização também nestas áreas”. Lá em Camaragibe, Patrick foi vítima da segunda fase desse processo.

Como a maioria dos meninos de 11 do Viana, ele também sonha em ser jogador de futebol. Fomos mostrar o vídeo Copa sem Casa e ele estava em casa. Nas paredes, a bandeira do Brasil e as marcas de um São João verde e amarelo. Mas porque ele não estava jogando bola com os outros meninos num dos campos improvisados no acostamento da estrada? “Ali é muito perigoso. Um colega meu quase morre porque caiu num burado da obra e não sabia nadar”, conta o menino, explicando que o maior perigo são os caminhões em alta velocidade.

A perda dos três campinhos não é um desastre por si só. Ela é apenas mais um reflexo de como vem sendo feito o processo de exploração imobiliária em Pernambuco. Perto da casa onde eu cresci, no bairro de Casa Forte (Recife), também existiam três locais para jogar futebol. Todos foram destruídos para dar espaço aos conjuntos residenciais com suas mini-quadras de uso privativo. E essa situação se repete por todo o Brasil e também com espaços importantes para outros esportes.

Por mais que o Rio de Janeiro tenha sido o local de maiores protestos durante a Copa das Confederações, é chocante a informação de que até agora não foi reconstruída a área dos complexos de atletismo e natação do Maracanã. A Copa passou e deixou Patrick sem seus campinhos. E as crianças que crescerem fora dos condomínios de luxo encontram cada vez mais dificuldade para jogar futebol nos seus bairros pelo Brasil. E mesmo o maior complexo esportivo da Zona Norte do Rio, um dos maiores pontos turísticos do Brasil, também sofre essa violência contra quem acha que o esporte é sim parte fundamental na educação e lazer de uma nação.

Mas ainda temos dois anos para dar exemplos antes das Olimpíadas. Reconstruir com muito mais qualidade os campos das comunidades atingidas pelas obras da Copa. Refazer as casas (como lá no Viana) que foram afetadas pelas obras e estão rachadas. Pagar as indenizações de quem não recebeu e dar casas para os removidos que não tiveram condições de comprar imóveis por conta dos valores baixos recebidos. Serão com certeza bandeiras da sociedade civil nessa nova etapa, seja o Brasil campeão ou não do Mundial da Fifa.

Para muita gente pode ser até uma questão menos importante. Mas, para mim, apaixonado por futebol e por esporte de uma forma geral, também faz parte do meu sonho que nas Olimpíadas possamos dizer que deixamos um legado esportivo para nossas crianças. Infelizmente, minha esperança é mínima. E a Copa do Mundo mostra claramente que estamos muito piores do que antes do Mundial quando falamos em acesso ao futebol. Mas não podemos ficar simplesmente esperando dos governantes e das empreiteiras que mudem sua forma de destruir.

Vocês já ouviram falar do Mundial de Futebol de Rua e da Copa Rebelde? Recife está pronto para discutir o legado esportivo do Mundial 2014!

https://coparebelde.wordpress.com/

http://www.mundialfutebolderua.org/

This slideshow requires JavaScript.

A arena, o metrô e as paçocas

* Artigo do jornalista André Justino, escrito no dia da partida Alemanha x Estados Unidos, pela Copa do Mundo.

A manhã do quarto jogo na Arena Pernambuco, entre as seleções da Alemanha e dos Estados Unidos foi marcada pela chuva e pela circulação no metrô de um número considerável de torcedores. As faces comuns do dia a dia, de pessoas que seguiam para o trabalho, guardavam nítido contraste com os alemães e norte americanos de porte físico alto e a pele clara. Mas, foi no trem da linha Jaboatão, que se deu o maior dos contrastes, lá, fora do alcance da fiscalização da Dircon, o menino Wesley, de 12 anos, vendia paçocas de amendoim dentro do metrô, sem nem se preocupar com a fantasia passageira da realização da Copa do Mundo.

O garoto, de passos e fala rápida, que circulava entre um vagão e outro carregando uma caixa cheia de paçocas e que provavelmente tinha o mesmo peso dele, disse que morava no bairro do Barro Vermelho, em São Lourenço da Mata, cidade onde se dá os jogos do Mundial. Os trajes dele não omitiam sua origem, se na frente do corpo carregava a caixa, nas costas trazia uma mochila da rede pública de ensino são lourencense, que dizia em letras garrafais “CIDADE DA COPA”.

Na viagem ele disse que vendia no metrô, pois tinha de se virar para conseguir dinheiro, mas que quando dava ele ia para a escola. “Minha mãe está em casa chegou essa semana da prisão e meu pai está morto”, sentencia o menino, quase que admitindo não ter outra opção de vida. “Venho para Jaboatão, pois tem muito guarda de Coqueiral para lá”, reforçando a informação de que há um aumento na segurança das estações localizadas em Recife, com equipes da prefeitura que inclusive tomam as mercadorias dos ambulantes e os colocam para fora do metrô.

Ao chegar à estação Jaboatão, em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem para descer, o pequenino Wesley sumiu. Só foi visto novamente fora dos vagões, já acompanhado por uma agente terceirizada da segurança da CBTU. Ela, que disse já ter sido previamente avisada da presença de um vendedor ambulante no trem, o direcionou até a integração do sistema SEI de Jaboatão, lhe apontando a parada do ônibus que voltava para estação Floreano, “Lá você consegue entrar novamente e não volte mais aqui não viu, pois vou ter de agir de outra forma”, adverte a segurança.

De lá o franzino menino seguiu. Não se sabe se voltará para casa em São Lourenço da Mata ou para uma nova empreitada, desviando-se dos seguranças no metrô. O que se sabe é que a caixa ainda estava cheia e menos mal que ele não a perdeu, pois era o sinal de que se por um lado com um Real dentro da arena não daria para comprar nada, do lado de fora, com a mesma moeda alguém poderia adquirir sete paçocas, ou seja, Wesley ainda tinha muito trabalho pela frente.

Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Garoto foi apenas mandado embora pela segurança do metrô
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Venda de mercadorias é corriqueira, mas trabalho infantil deveria ter atenção especial
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô
Criança foi proibida de vender paçocas no metrô