Governo de Pernambuco sonega informações sobre remoções da Copa

A estratégia do Governo do Estado é diminuir o número de famílias removidas quando fala da Copa do Mundo. Para isso, sempre utiliza o número de processos nas suas falas e nunca o de residências. É preciso destacar que muitos dos imóveis desapropriados, especialmente nas proximidades da Arena Pernambuco, eram moradia para mais de uma família e até oito ou dez casas chegaram a ser desapropriadas em um mesmo ato.

Em debate promovido pelo Instituto Ethos, na Caixa Cultural (Recife), pouco mais de um mês antes do início do Mundial 2014, o secretário da Secopa voltou a insistir em números que maquiam essa realidade. Para ele, a Procuradoria Geral do Estado teria desapropriado 457 imóveis. O uso desse número tem dois problemas, já que além de diminuir o quantitativo de famílias também dá a impressão de que as indenizações são muito altas, pois incluem como iguais diferentes situações (imóveis comerciais e institucionais de grande porte, terrenos rurais ou industriais e especialmente por contar como unidade áreas que muitas vezes tem seis, oito ou até uma dezena de residências).

A informação é facilmente desconstruída quando se começa a manusear os processos e se percebe que alguns dos processos tem seis, oito, residências sendo indenizadas simultaneamente. Mas para cobrar transparência e a divulgação dos verdadeiros números decidimos utilizar somente as informações divulgadas pelos órgãos oficiais. Portanto, quando falamos em mais de 2.000 imóveis desapropriados para a Copa estamos ainda falando de um número bem menor do que a realidade, que pode chegar por uma comparação simples que fazemos a cerca de 3.000 residências (ou 12.000 pessoas, como contabiliza a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa).

Para cobrar do poder público os verdadeiros números, o jornalista Eduardo Amorim decidiu continuar utilizando somente os dados oficiais. Em reportagem publicada em 2013, pelo portal Terra, ele somou os 1562 processos da Via Mangue (obra executada pela Prefeitura do Recife) aos do Governo do Estado e garantiu: “Mais de 2.000 famílias são removidas por obras da Copa em Pernambuco”.

Quase um ano depois, o Governo do Estado continua sonegando o detalhamento das informações. A transparência nestas informações vem sendo cobrada pelo Comitê Popular da Copa de Pernambuco. E a divulgação do número de indenizações e dos valores em cada uma das comunidades atingidas pelas comunidades atingidas pelas obras da Arena Pernambuco e do Mundial de 2014 é um dos objetivos do blog Mídia Capoeira.

Veja o texto publicado em 26 de agosto de 2013 pelo portal Terra: http://esportes.terra.com.br/futebol/copa-2014/mais-de-2000-familias-sao-removidas-por-obras-da-copa-em-pe,4cfb2688e59b0410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

Morador do Loteamento São Francisco, Seu Manoel sofreu AVC antes de sua casa ser demolida
Morador do Loteamento São Francisco, Seu Manoel sofreu AVC antes de sua casa ser demolida

Segue o texto na íntegra:

Mais de 2.000 famílias são removidas por obras da Copa em PE

Quantas famílias estão sendo desapropriadas pelas obras da Copa em Pernambuco? Essa simples pergunta pode ter mais de uma resposta. Para o Governo do Estado, sem contar as desapropriações que foram realizadas nos dois terrenos, onde já foi construída a Arena Pernambuco, existem 467 processos dos quais apenas 68 ainda estão em negociação (judicial ou administrativa). Já a Prefeitura do Recife, que executa a principal obra viária do projeto (Via Mangue), reassentou 992 famílias, indenizou outros 544 imóveis, negocia 26 e analisa se será necessário utilizar a área de outros 15, todos localizados na Zona Sul do Recife.

Ou seja, em uma soma simples, são mais de 2.000 famílias que saíram ou terão de sair de seus imóveis por conta das obras do Mundial de 2014 em Pernambuco. Mas a dúvida começa quando se tenta chegar a um número exato. A reportagem do Terra foi entrevistar o procurador geral do Estado, Thiago Arraes de Alencar Norrões, para tentar chegar a uma conclusão.

O Governo de Pernambuco admite como obras de sua responsabilidade na mobilidade da Copa do Mundo o Ramal da Copa, Corredor Leste-Oeste, Terminais Integrados de Camaragibe e Cosme e Damião e Corredor Norte- Sul (Avenida Cruz Cabugá e Transnordestina). Com isso, fica claro que a posição do poder público estadual é de encarar as obras que estão sendo realizadas para o acesso ao Terminal de Passageiros do Joana Bezerra, no Coque, como obras de mobilidade que não tem relação necessariamente com o Mundial de 2014.

O movimento Coque (R)Existe realizou um vídeo para denunciar a situação das famílias que estão tendo de deixar suas casas por conta das obras no bairro, que liga o Centro do Recife à Zona Sul e é marcado pela pobreza e resistência. “A gente não só está considerando como fomos numa reunião na Procuradoria Geral do Estado e eles afirmaram que a ampliação do acesso viário (ao TI Joana Bezerra) fazia parte do conjunto de obras para o acesso à Arena Pernambuco. Portanto é uma obra ligada à Copa sim”, diz Cleiton Barros, um dos realizadores do curta.

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Ilustração de Nathalia Queiroz

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