Vai ter Copa, para alguns.

Por Alice Bezerra de Mello Moura. Aluna do Mestrado em Antropologia no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) na UFPE.

A contagem regressiva para o ponta pé inicial da Copa do Mundo no Brasil está visível na avenida Agamenon Magalhães, em Recife, para que ninguém esqueça os dias que nos separam desse grande torneio de futebol. Se não faltam sinais que a Copa está para começar, os impactos das obras para viabilização do evento na Região Metropolitana do Recife é desconhecido pela maioria dos pernambucanos. Como cidade sede para realizar, diga-se de passagem, cinco jogos, Recife precisou fazer várias intervenções buscando atender os requisitos da FIFA, entre as quais destacam-se a construção da Arena Pernambuco em São Lourenço da Mata e as obras de mobilidade que dão acesso à esse estádio (Ramal da Copa, Corredor Leste-Oeste, construção do terminal integrado de Cosme e Damião e ampliação do terminal integrado de Camaragibe). Ao contrário da contagem rigorosa dos dias para o começo da Copa, o número de pessoas que foram removidas de suas casas por causa das obras permanece obscuro.

Apesar do número total oficial de desapropriados nunca ter sido divulgado, mesmo depois de várias tentativas da sociedade civil em ter acesso à essa informação, alguns pesquisadores, jornalistas e o Comitê Popular da Copa de Pernambuco calculam que mais de 2.000 famílias tiverem suas casas demolidas em decorrência das obras para a Copa, só em Pernambuco.

Quantas pessoas sabem disso?

O Loteamento São Francisco, em Camaragibe, foi um dos bairros destruídos pela passagem das obras do Ramal da Copa e da ampliação do TI de Camaragibe (vale ressaltar que essa última não será mais feita em tempo hábil para a Copa). No lugar das gerações inteiras que conviviam ali há mais de 40 anos, hoje só restam os destroços deixados pelos tratores. Onde existiam casas com grandes áreas externas, jardins, comércios, agora é um descampado sem vida alguma.

Desde que receberam a notícia que deveriam sair de suas casas, até hoje, as famílias viveram dias de incerteza e desespero. A falta de transparência foi evidente desde a maneira pela qual as famílias foram comunicadas da remoção, por uma empresa terceirizada que não deu informações sobre o processo e colou um adesivo (!!) nas casas que seriam demolidas. De acordo com os moradores e o Comitê Popular da Copa de Pernambuco, as indenizações não são suficientes para comprar outra casa semelhante, isto é, o valor não condiz com o valor do mercado. Além disso, atualmente, cinco meses após terem saído de suas casas, muitas famílias ainda não receberam o valor total da indenização. Ora, se a indenização total já não era suficiente para comprar outra casa, o que fazer com apenas 30% ou 50% do valor pago? A situação é gravíssima: no Loteamento moravam muitos idosos e infelizmente alguns não resistiram ao processo traumático da remoção, até agora sete pessoas faleceram por razões diversas (avc, infarto, etc.) que não podem ser dissociadas do contexto truculento no qual estiveram inseridos em seus últimos dias de vida.

O direito a moradia está garantido na nossa constituição e como frisou a relatora da ONU para o Direito à Moradia Adequada, Raquel Rolnik, na ocasião de sua visita às áreas desapropriadas em Recife: “quando acontece uma remoção, a situação da moradia da pessoa que estava nunca pode piorar, sempre tem que melhorar. Melhorar às vezes só um pouquinho, mas melhorar, ou pelo menos ficar igual. O que estamos observando aqui (em Recife), observando e visitando as pessoas, é que elas, com esse recurso, estão morando muito pior do que estavam antes.” Fica claro que o processo de remoção vivido por essas famílias, para dar lugar às exigências da FIFA, foi brutal, sem a transparência e o diálogo que deveriam ser característicos de uma sociedade democrática. Será que vamos deixar um grito de gol nos fazer esquecer toda a brutalidade passada por essas famílias? Não digo “não vai ter copa”, mas “vai ter copa, para alguns”.

Maioria das demolições no Loteamento São Francisco ocorreram no fim de 20134
Maioria das demolições no Loteamento São Francisco ocorreram no fim de 2013
Esse artigo foi publicado originalmente na Folha de Pernambuco
Esse artigo foi publicado originalmente na Folha de Pernambuco
Pesquisa foi primeira pessoa a falar para autor do Mídia Capoeira das desapropriações em São Lourenço, Cosme e Damião, Santa Mônica e em Camaragibe
Pesquisa foi primeira pessoa a falar para autor do Mídia Capoeira das desapropriações em São Lourenço, Cosme e Damião, Santa Mônica e em Camaragibe

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